Dica de livro: O Arroz de Palma

Eu já conhecia o famoso e perfeito trecho :

“Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes. Reunir todos é um problema, principalmente no Natal e no Ano Novo. Pouco importa a qualidade da panela, fazer uma família exige coragem, devoção e paciência. Não é para qualquer um. Os truques, os segredos, o imprevisível. Às vezes, dá até vontade de desistir. Preferimos o desconforto do estômago vazio. Vêm a preguiça, a conhecida falta de imaginação sobre o que se vai comer e aquele fastio. Mas a vida, (azeitona verde no palito) sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite. O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares. Súbito, feito milagre, a família está servida. Fulana sai a mais inteligente de todas. Beltrano veio no ponto, é o mais brincalhão e comunicativo, unanimidade. Sicrano, quem diria? Solou, endureceu, murchou antes do tempo. Este é o mais gordo, generoso, farto, abundante. Aquele o surpreendeu e foi morar longe. Ela, a mais apaixonada. A outra, a mais consistente.” Família é prato que emociona. E a gente chora mesmo. De alegria, de raiva ou de tristeza.”

Quando comecei a ler o livro me encantei logo no início. O livro tem humor, ensinamentos e  muita emoção. Antonio conta a história da  família que veio de Portugal  para o Brasil. São 100 anos de lembranças contados por ele, o primogênito de quatro irmãos, filhos de José Custódio e Maria Romana. Para comemorar seus 88 anos, ele prepara um almoço de família e reúne todos: mulher, filhos, netos e descendentes. O foco da história é o arroz. No dia do casamento de seus pais, em 1908,  as pessoas jogam arroz sobre os noivos, costume na época, e Tia Palma, irmã de José Custódio, pessoa de uma alma encantadora, personagem de grande relevância, recolhe do chão todo aquele arroz e dá de presente aos recém casados: 12 quilos de arroz. “Este arroz, plantado na terra, caído do céu como o maná do deserto e colhido da pedra é o símbolo de fertilidade e eterno amor. Esta é a minha benção.”

O irmão acha aquilo tudo um absurdo, mas a cunhada se encanta com o presente e assim começa a história. O arroz não estraga nunca, se torna algo mágico e ao ser ingerido provoca felicidade e fertilidade, acompanhando as gerações da família, onde acontecem brigas, separações, intrigas, comemorações, desentendimentos, nascimentos e mortes. Por isso o narrador diz que família não se copia, se inventa. E aos poucos a gente vai se identificando cada vez mais com os personagens. É uma história encantadora!

Eu sou infinitamente apaixonada por minha família. Me considero muito abençoada por ter nascido nela. Adoro conhecer as histórias, construir memórias, contar aos meus filhos minhas lembranças com meus avós, que infelizmente já são falecidos, mas foram presentes em minha vida o suficiente para me abastecerem com momentos especiais. E o livro me levou a recordar acontecimentos e entender ainda mais que não existe família perfeita. Família é projeto de Deus. Temos muitos defeitos, mas devemos nos amar, aceitar, tolerar e perdoar. Aproveitar ao máximo cada instante que passamos juntos. Moro longe da minha, e sei o quanto isso me dói. A falta que sinto de um simples e tumultuado almoço de domingo. Feliz quem tem e sabe curtir e aproveitar! E acima de tudo valorizar!!

O livro de Francisco Azevedo não é um livro de receitas para se conviver em família, mas é um livro que certamente você vai gostar de ler.

Beijos com carinho,

Lara Beatriz.

 
“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”
Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas

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